13/04/2017

A luta da lata para embalar o que o brasileiro come

Muito interessante o "reclame" a seguir, dos anos 1920, onde se vê o confronto nítido da "banha" ou "manteiga" de coco para expulsar a banha de porco da dieta dos brasileiros. 

Nada desse clima "moderninho", de alegada saudabilidade da gordura de coco.  Era mesmo uma guerra, para conquistar estômagos e mentes. 



Enfim, como dizem, "tudo é história"... (clique sobre a imagem que fica mais bacana)




30/03/2017

Paladar vira e-commerce

Era uma vez um suplemento de gastronomia que se transformou num e-commerce. Fez parceria com uma loja de vinhos e vai oferecer 1.700 rótulos, tudo explicadinho numa revista de vinhos que o consumidor “vai estar assinando” no pacote. Ah, claro, vai poder "estar harmonizando" também!

Depois, vão vender comidinhas gourmet. Dessas que tem em São Paulo em qualquer lugar, mas que no “Brasil profundo” só serão acessíveis para os seus clientes, they presume.

É uma operação radical, e previsível, essa de entregar a alma para o mercado. Claro, parece natural, exceto para aqueles que sempre alimentam a ilusão da independência da imprensa frente ao mercado. 


o relogio quebrou e o ponteiro parou em cima da meia noite... tanto faz porque depois de um vem dois….e eu fico olhando o rato saindo do buraco do meu quarto...

21/03/2017

Será que as carnes frias não foram "esfriadas" pela própria legislação?

Muita gente tem se manifestado dizendo que não vê problemas em incluir carne de cabeça de porco em embutidos. Eu sou um deles. Outros, que a tal "vitamina C", mesmo em excesso, não é cancerígena. Outros ainda, que o tal "papelão" é na verdade celulose - necessária para estruturar o produto, podendo se usar, alternativamente, algum amido e glúten. Há muitos embutidos cuja tripa é feita de celulose, material que o organismo não absorve.

Quer dizer: o "escândalo" se baseia em supostos procedimentos reprováveis (como reembalar carnes de validade vencida) e boa dose de ignorância, além de padrões culturais tradicionais e desprovidos de cientificidade. Ou seja: praticas condenáveis e preconceitos emergem de forma virulenta.

As coisas realmente reprováveis são fruto de uma estrutura de fiscalização corrupta (dizem que isso é "segredo de polichinelo", embora tolerado por quem sabe), e as duvidosas de padrões culturais que precisam ser discutidos. 

No conjunto, a crise da operação policial permitirá a concorrentes internacionais avançarem sobre fatias do mercado dos frigoríficos brasileiros. Mas também abre a oportunidade de revermos padrões de desenvolvimento em tudo absurdos - pois a pecuária se tornou "grande" por conta do desmatamento e do esbulho de terras indígenas - além de padrões sanitários que nada tem a ver com a saúde humana, macaqueando o higienismo de matriz norte-americana, responsável pela proscrição dos laticínios de leite cru, etc. 

Enfim, faremos dessa oportunidade o que formos capazes de passar a limpo. Uma hipótese é que tudo continuará como dantes quando a crise passar e a corrupção da fiscalização for novamente escamoteada. 













19/03/2017

Carne? É hora de tomar tento


O boi e a soja comeram literalmente o cerrado brasileiro e estão em vias de liquidar as florestas da Amazônia. A soja e o boi brasileiros vieram ao mundo com as mãos manchadas de seiva da floresta. 

O senador Blairo Maggi é o rei da soja, expressão de uma holding que faz de tudo: plantio, processamento, comércio de grãos, produção de sementes, reflorestamento, pecuária, venda de fertilizantes, geração de energia elétrica, administração portuária, transporte fluvial, exportação e importação. Faturou quase 4 bilhões de dólares em 2011. Ele é o Ministro da Agricultura, surpreendido pela operação Carne Fraca em plenas ferias.

A bancada ruralista é a bancada do boi e da bala. Todo mundo sabe. A produção pecuária, os grandes frigoríficos, são o seu sustentáculo. Ambas - a turma da soja e do boi - estão juntas num programa mínimo que é bem simples: flexibilizar a legislação ambiental, tirar o índio do caminho. E são responsáveis diretos pelas priores práticas ambientais.

Agora, na berlinda, lê-se por ai que a Polícia Federal está ajudando a destruir um dos pilares do desenvolvimento brasileiro - aquele que o BNDES fez tanta força para tornar um player mundial. Um capitalismo fortão para ninguém botar defeito. Dai deduzem que o “segredo de polichinelo” que é a corrupção no setor foi trazido à luz do dia por interesses políticos escusos. Se houvéssemos denunciado com afinco esses segredos anteriormente, talvez a Policia Federal precisasse de outros argumentos.

Digamos que esse modelo de desenvolvimento não é aquele pelo qual os democratas devam lutar. Digamos que a crise deflagrada na semana deixa mais evidente que é preciso revê-lo, inclusive porque suas grandes proezas são feitas sob proteção do Estado, que devia dedicar-se mais não só à saúde da população como à preservação ambiental. 

O objetivo público não é o lucro privado, mas sim regular o ambiente em que atuam as empresas privadas de modo a não macularem o interesse público. 


É hora de tomar tento.

13/03/2017

Quando se irá discutir a caça racionalmente?



Bem complicada a questão posta pelo projeto de lei 6.268/16 que novamente permite a caça de animais silvestres no Brasil. Já existem ambientalistas histericos com isso. Ele revoga a proibição de 1967, 50 anos atrás, e retira da Lei de Crimes Ambienteais (Lei 9.605/98) o agravamento da pena por matar, perseguir, caçar, apanhar ou utilizar animais sem licença para isso. 

Esta legislação é muito extensa e radical, pois até um cientista, para colher um coleóptero, precisa de licença do Ibama. Mas o órgão é bastante incompetente na gestão ambiental sob este aspecto. Haja vista a praga dos javalis soltos por ai, a destruir culturas no interior de vários estados, inclusive São Paulo. Apesar de espécie exótica, pôs-se o Ibama em sua defesa por décadas. O resultado é o que se vê hoje, tendo o Ibama recuado de sua intransigência burra. Outras espécies também não podem ser consideradas “nativas” stricto sensu, como as aves migratórias, como patos - que vêm do Canada e vão até a Argentina, mas se “param” na Lagoa dos Patos (veja o nome!), não podem ser caçadas, e se estacionam no Uruguai, ai sim podem ser caçadas.




Quando essa proibição surgiu, queria o Brasil se desenvolver institucionalmente na área ambiental para se habilitar para o acesso a fundos internacionais então em expansão. Mas os diferentes países possuem culturas diversas em relação à caça. Ela é legal na Argentina, no Uruguai, em vários países da Europa, nos Estados Unidos. Legal não quer dizer não-regulamentada. Nada disso. Quer dizer apenas prevista em certas circunstancias. 

Para que não seja nociva ao meio ambiente, o controle estrito dos estoques naturais e o estabelecimento de limites de abate é fundamental. É sempre uma má justificativa dizer que o “Ibama não tem pessoal suficiente para fiscalizar”. A caça esportiva, em países como a Espanha, é bastante “sustentável”, isto é, gera receitas que financiam uma boa estrutura de regulamentação e fiscalização. 

Anualmente, o rei abre a temporada de caça às perdizes. Esses animais são criados em cativeiro e soltos para a caça esportiva. Cada exemplar abatido gera uma movimentação de dinheiro da ordem de € 50 - divididos entre criadores, licença de porte de armas, taxas municipais, aproveitamento pela industria alimentícia, etc. Tem-se assim a convicção de que a regulamentação é um bom expediente para preservar as espécies pelos interessados (caçadores).

No Brasil a história é bem outra. A origem da caça não é aristocrática, como na Europa, mas popular. Não só os povos indígenas consumiam regularmente as espécies selvagens, mas qualquer leitor atento dos viajantes coloniais notará a extensão desse hábito, adotado inclusive pelos colonizadores. Quando se proibiu a caça, ela atingiu diretamente camadas populares que ainda mantinham (e mantém agora ilegalmente) esse hábito, como os caboclos ribeirinhos da Amazônia. 

Os criadouros autorizados pelo Ibama para algumas espécies - como capivaras, cateto, queixada, pacas, etc - mostraram-se, em certo sentido, uma boa estratégia preservacionista, e o desejável seria vermos a expansão dessa política aliada a uma regulamentação da caça silvestre. Paca, tatu, cotia, etc. Aves com perdizes, codornas, nhambus etc. Além dos peixes de rio, como o dourado, proibido no Rio Grande do Sul apesar da ampla recuperação dos estoques.

Dificilmente, porém, os lobbies ambientalistas deixarão a legislação avançar nessa direção. Ainda mais que o projeto atualmente em pauta é de inspiração nitidamente ruralista, querendo autorizar o abate de carnívoros (em especial felinos) que pressionam rebanhos agro-pecuários. 


A previsão é, portanto, que as contradições da legislação e os conflitos políticos preservem ainda por bom tempo um ambiente institucional anacrônico.