07/05/2017

Atenção: antes de ser uma vasilha, gamela é nome de brasileiros...


Faz uma semana que os índios gamela de Viana, no Maranhão, foram atacados e ninguém está preso. Foram atacados e lesados por tiros e decepação. Certamente por conhecidos pistoleiros a mando de conhecidos fazendeiros. No entanto, a única vítima política foi o presidente da Funai que, demitido, sabe-se lá por quem será substituido, pois esclarece o ministro da justiça: “Nós construímos essa coalizão por meio de uma partilha com os diversos partidos. Assim também ocorre com a Funai. Então não é o ministro da Justiça quem vai decidir em relação ao presidente da Funai”. 

Com boa chance de acertar quem aposte na bancada ruralista. E o próprio exonerado reforça essa hipótese: "[Fui exonerado] Por não ter atendido o pedido do líder do governo André Moura (PSC-CE) que queria colocar 20 pessoas na Funai que nunca viram índios em suas vidas. Estou sendo exonerado por ser honesto e não compactuar com o malfeito e por ser defensor da causa indígena diante de um ministro ruralista”. O mesmo ministro que chamava de “chefe” o fiscal corrupto do escândalo dos frigoríficos…

Tudo isso é corriqueiro. Mas o que foi marcante nesse episódio foi a insistência dos fazendeiros e das autoridades locais em desqualificarem a indianidade dos gamela. Em todas as falas eles são apresentados como “auto-denominados índios” ou, pior, “supostos índios gamela”. Leu-se até mesmo sugestão para transforma-los em quilombolas para resolver a questão das terras, colocando-os em outro escaninho, enquanto o deputado cearense os chamava de pseudoindígenas. A luta política e ideológica é também uma luta por palavras. E escaninhos...

Depois de transforma-los em pobres, e portanto integra-los indiferenciadamente aos brasileiros, é negado que se auto-denominem índios e reivindiquem direitos históricos. E o que podem reivindicar além da identidade que teimavam em esconder ou dissimular para não serem mais prejudicados?  Objetivamente, apesar de terem sido esbulhados das terras a que tiveram o direito reconhecido ainda no império, tiraram-lhes o direito de serem índios.


Sim, porque o direito a serem índios é garantido pela Constituição, bastando apenas que se reconheçam como tal. Ninguém é índio, negro ou branco por obra de mensurações antropométricas, ainda que feitas “a olho” por delegados de policia, vizinhos, ou imprensa.


E o mais chocante é que a imprensa se preste ao papel de ecoar esse odioso expediente discriminatório, repetindo frases como “supostos índios”, ou “auto-denominados” como uma desqualificação da indianidade. Tristes trópicos.

13/04/2017

A luta da lata para embalar o que o brasileiro come

Muito interessante o "reclame" a seguir, dos anos 1920, onde se vê o confronto nítido da "banha" ou "manteiga" de coco para expulsar a banha de porco da dieta dos brasileiros. 

Nada desse clima "moderninho", de alegada saudabilidade da gordura de coco.  Era mesmo uma guerra, para conquistar estômagos e mentes. 



Enfim, como dizem, "tudo é história"... (clique sobre a imagem que fica mais bacana)




30/03/2017

Paladar vira e-commerce

Era uma vez um suplemento de gastronomia que se transformou num e-commerce. Fez parceria com uma loja de vinhos e vai oferecer 1.700 rótulos, tudo explicadinho numa revista de vinhos que o consumidor “vai estar assinando” no pacote. Ah, claro, vai poder "estar harmonizando" também!

Depois, vão vender comidinhas gourmet. Dessas que tem em São Paulo em qualquer lugar, mas que no “Brasil profundo” só serão acessíveis para os seus clientes, they presume.

É uma operação radical, e previsível, essa de entregar a alma para o mercado. Claro, parece natural, exceto para aqueles que sempre alimentam a ilusão da independência da imprensa frente ao mercado. 


o relogio quebrou e o ponteiro parou em cima da meia noite... tanto faz porque depois de um vem dois….e eu fico olhando o rato saindo do buraco do meu quarto...

21/03/2017

Será que as carnes frias não foram "esfriadas" pela própria legislação?

Muita gente tem se manifestado dizendo que não vê problemas em incluir carne de cabeça de porco em embutidos. Eu sou um deles. Outros, que a tal "vitamina C", mesmo em excesso, não é cancerígena. Outros ainda, que o tal "papelão" é na verdade celulose - necessária para estruturar o produto, podendo se usar, alternativamente, algum amido e glúten. Há muitos embutidos cuja tripa é feita de celulose, material que o organismo não absorve.

Quer dizer: o "escândalo" se baseia em supostos procedimentos reprováveis (como reembalar carnes de validade vencida) e boa dose de ignorância, além de padrões culturais tradicionais e desprovidos de cientificidade. Ou seja: praticas condenáveis e preconceitos emergem de forma virulenta.

As coisas realmente reprováveis são fruto de uma estrutura de fiscalização corrupta (dizem que isso é "segredo de polichinelo", embora tolerado por quem sabe), e as duvidosas de padrões culturais que precisam ser discutidos. 

No conjunto, a crise da operação policial permitirá a concorrentes internacionais avançarem sobre fatias do mercado dos frigoríficos brasileiros. Mas também abre a oportunidade de revermos padrões de desenvolvimento em tudo absurdos - pois a pecuária se tornou "grande" por conta do desmatamento e do esbulho de terras indígenas - além de padrões sanitários que nada tem a ver com a saúde humana, macaqueando o higienismo de matriz norte-americana, responsável pela proscrição dos laticínios de leite cru, etc. 

Enfim, faremos dessa oportunidade o que formos capazes de passar a limpo. Uma hipótese é que tudo continuará como dantes quando a crise passar e a corrupção da fiscalização for novamente escamoteada. 













19/03/2017

Carne? É hora de tomar tento


O boi e a soja comeram literalmente o cerrado brasileiro e estão em vias de liquidar as florestas da Amazônia. A soja e o boi brasileiros vieram ao mundo com as mãos manchadas de seiva da floresta. 

O senador Blairo Maggi é o rei da soja, expressão de uma holding que faz de tudo: plantio, processamento, comércio de grãos, produção de sementes, reflorestamento, pecuária, venda de fertilizantes, geração de energia elétrica, administração portuária, transporte fluvial, exportação e importação. Faturou quase 4 bilhões de dólares em 2011. Ele é o Ministro da Agricultura, surpreendido pela operação Carne Fraca em plenas ferias.

A bancada ruralista é a bancada do boi e da bala. Todo mundo sabe. A produção pecuária, os grandes frigoríficos, são o seu sustentáculo. Ambas - a turma da soja e do boi - estão juntas num programa mínimo que é bem simples: flexibilizar a legislação ambiental, tirar o índio do caminho. E são responsáveis diretos pelas priores práticas ambientais.

Agora, na berlinda, lê-se por ai que a Polícia Federal está ajudando a destruir um dos pilares do desenvolvimento brasileiro - aquele que o BNDES fez tanta força para tornar um player mundial. Um capitalismo fortão para ninguém botar defeito. Dai deduzem que o “segredo de polichinelo” que é a corrupção no setor foi trazido à luz do dia por interesses políticos escusos. Se houvéssemos denunciado com afinco esses segredos anteriormente, talvez a Policia Federal precisasse de outros argumentos.

Digamos que esse modelo de desenvolvimento não é aquele pelo qual os democratas devam lutar. Digamos que a crise deflagrada na semana deixa mais evidente que é preciso revê-lo, inclusive porque suas grandes proezas são feitas sob proteção do Estado, que devia dedicar-se mais não só à saúde da população como à preservação ambiental. 

O objetivo público não é o lucro privado, mas sim regular o ambiente em que atuam as empresas privadas de modo a não macularem o interesse público. 


É hora de tomar tento.